terça-feira, 10 de novembro de 2015

Dorian Gray, o mito de Narciso e a superficialidade da beleza contemporânea.

Não há nada mais oportuno do que o nome desse blog... Só publico aqui pensamentos avulsos e num espaçamento temporal tão significativo, que parece que visito essa página anualmente, como um viajante errante que à casa retorna para repor as energias, próximo aos familiares, mas que logo coloca o pé na estrada novamente...

Pelo o que pude constatar, minha última postagem ainda era da minha época de estudante de Direito na UFV... E, diga-se de passagem, uma estudante um tanto inconformada com o rumo de sua carreira profissional na área jurídica. Atualizando minha situação acadêmica, estou na Medicina. Comecei o primeiro período na UFV, no semestre 2014/1, mas 1,5 mês antes de concluí-lo, consegui passar na UFMG, que é onde estou desde o período de 2014/2. [Ou seja, agora encontro-me no 3º período.]

Bom, não vim aqui para ficar relatando o que fiz nesse hiato temporal sem postagens. Resolvi escrever por uma necessidade intrínseca que me impulsionou a tal. No dia 31/10/15, terminei a leitura do livro "O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde. Era uma leitura que eu vinha me cobrando a fazer por uns 2 anos, mas a qual sempre me desculpava pela falta de tempo. Não que eu esteja à toa agora, muito pelo contrário (!), mas tenho à minha disposição 30 a 35 minutos diários nas viagens de ônibus do centro de BH para o campus Pampulha da UFMG. Resolvi aproveitar esse momento e fico feliz por ter tomado essa atitude.



Bom... Inglaterra, século XIX. Dorian Gray, jovem burguês ingênuo de 18 anos chega em Londres. Dono de uma beleza/aparência que se equipara à perfeição encanta a todos que o cercam. Dentre essas pessoas, temos o pintor Basil Hallward que vê em Dorian o cerne da inspiração que precisava para fazer sua obra-prima: uma bela pintura de Dorian Gray, tão bela que parece capturar a alma e a beleza do jovem rapaz, em todo o seu esplendor. Nesse ínterim, Lorde Henry Wotton, amigo de Basil, conhece o rapaz burguês e, a partir daí, passa a influenciá-lo a seguir seu ideal de vida, qual seja, uma busca irrefreada pela satisfação dos prazeres através dos sentidos, ou seja, um estilo de vida hedonista.

Esse é o cenário inicial do romance e a história irá se desenrolar a partir do fato de que Dorian Gray, ao ver a pintura de Basil e ficar maravilhado com sua própria imagem na tela, teme o envelhecimento e deseja permanecer jovem e belo eternamente. Como num "pacto satânico", o sr. Gray continua com sua aparência física, sem nenhuma alteração; já o quadro detém sua alma, degenerando-se a cada má ação cometida pelo jovem.

É uma história um tanto fantasiosa, mas o que me chamou a atenção (além da belíssima escrita de Oscar Wilde) foram exatamente os temas que passaram a ser abordados na leitura: a importância da estética e do belo e até que ponto devemos valorá-los, qual o significado e valor da juventude, o papel do envelhecimento em nossas vidas e a degradação moral e psicológica do ser humano. É que, no livro, o jovem Dorian almeja a juventude, como se a velhice pudesse ser igualada à morte; destrói vidas, levando ao suicídio de entes queridos e assassinando outras pessoas; individualiza-se mais e mais; e perde qualquer centelha de humanidade que havia em si.



Recorrendo aos clássicos, é possível fazer uma correlação entre a trajetória do personagem Dorian e o mito de Narciso. Para quem não conhece a história, Narciso era um jovem lindíssimo filho do deus Céfiso e da ninfa Liríope. Por possuir uma beleza extremamente rara, estava predestinado a morrer, caso visse sua própria face; o que acontece quando ele se inclina sobre uma fonte, para beber água. Apaixonado pela própria imagem, descuida-se de tudo ao seu redor e morre comtemplando a si próprio. Correlacionando... A fonte d'água de Narciso equipara-se à pintura de Dorian Gray. Ambos possuíam uma beleza idealizada, desejaram fortemente não perdê-la. Viveram brevemente em suas "juventudes" e morreram tragicamente. Ou seja, a sedução pela beleza e o intento de torná-la eterna resultou em morte: morte social, por levar o indivíduo a banalizar qualquer coisa não circunscrita à sua aparência; morte psíquica, devido à perda de identidade do "eu", iludido com um físico belo; e morte física, encerrando as histórias de forma trágica.

O curioso e, relativamente triste, é que essa banalização do ser humano, bem como a supervalorização extrema da aparência não são atitudes reservadas aos aristocratas e dândis do século XIX, não é uma realidade cristalizada nessa época. Mas sim são fatalidades que não apenas nos acompanharam até os dias de hoje, como se modernizaram a fim de se adequar à sociedade contemporânea. É possível observar isso através do "boom" de transtornos alimentares (bulemia e anorexia) e da crescente individualização do ser humano, que se encontra cada vez mais interessado em alcançar seus objetivos, custe o o que custar (um retorno à máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios! help!), sem o menor sentimento altruísta por outrem (calma, não estou generalizando! Acho que ainda há esperança para esse mundo!). Isso sem comentar a busca desenfreada pelos vários métodos de se alcançar padrões utópicos de beleza (uso de hidrogel e "bombas" de hormônio), tudo tão supérfluo e perigoso...



É... Acho tudo isso tão desnecessário... Eu sou uma pessoa que se sensibiliza facilmente pelas agruras alheias e, não sei se pela "convivência" com cadáveres em aulas de anatomia ou embriologia, atribuo um valor ainda maior à vida e temo pela efemeridade e fragilidade do ser humano. A vida é-nos um bem precioso, uma jóia divina e suas peculiaridades só nos fazem ver a perfeição da Criação. Então, por quê se iludir com tantas futilidades do dandismo contemporâneo? [Para o dandi, a aparência não é um mero complemento na vida, mas, sim, o propósito de sua existência!!!] Por isso, talvez, posso dizer que o único trecho do livro, no qual concordo com os pensamentos de Dorian Gray, é o seguinte: "[...]E, é claro, a vida em si era a primeira, a maior das artes, para a qual todas as demais artes pareciam apenas uma preparação".

Bom... Finalizando... Para quem não sabe, fizeram um filme do livro "O retrato de Dorian Gray"; mas, como todo "bom" filme hollywoodiano, há um grande enfoque no lado carnal do personagem principal. "Curioso" é que até agora estou a procurar algum trecho do livro que aborde isso; o que se pode encontrar são algumas raras menções bastante indiretas, de 1 ou 2 linhas, dos momentos em que Dorian alugava um cabriolé para ir até os confins mais perigosos e mundanos de Londres. Enfim... Deixemos isso de lado, quem sou eu para criticar a poderosa indústria cinematográfica hollywoodiana...

É... Acho que já escrevi demais... Vou então deixar alguns questionamentos que tenho feito a mim mesma, recentemente. Challenge yourself e tente respondê-los! rsrsrs 
Qual o sentido da vida?
O que você mais valoriza na vida?
A arte pode ser um viés de cura para a degradação do ser humano?
Juventude versus velhice... apenas marcos temporais?

Para quem teve paciência de ler tudo isso, fico lisonjeada, obrigada!

P.S.1: Vale a pena dar uma lida:  http://www.psiquiatriageral.com.br/psicoterapia/narciso.htm
P.S.2.: Créditos das imagens:
http://serfelizeserlivre.blogspot.com.br/2014/04/selfie-e-o-narcisismo-moderno.html
http://lsoares.blogs.sapo.pt/224813.html
http://defrentecomoslivros.blogspot.com.br/2014/08/o-retrato-de-dorian-gray-livro-e-filme.html

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Direito ou esquerdo?

Fazer Direito? Ou fazer tudo errado?

Espero que essa sensação seja comum a todos os primeiro-anistas ingressos na universidade. Sensação ruim, que envolve angústia, leve decepção, um pouco de desânimo e uma preocupação constante com o futuro.

É assim: primeiro você cursa 8 anos de ensino fundamental. Depois mais 3 anos de ensino médio e passa no vestibular, etapa muito temida por todos. Não considero algo tão difícil, levando em consideração toda a base de conhecimentos e a formação educacional apreendida nas bancas escolares.

Bom, daí sua vida passa por uma guinada tremenda, porque você percebe que não pode tratar o aprendizado de forma tranquila. Afinal de contas, a universidade é o início da carreira profissional, o que exige seriedade, compromisso e paixão pelo que se estuda.

E é essa paixão pelo objeto de estudo que tem sido uma grande preocupação para mim.

Escolhi o Direito. Escolhi o Direito! Será que foi algo acertado? Caso alguém me perguntasse o porque dessa escolha, diria que almejo o poder, esse poder ou faculdade de regular a vida, ajudar as pessoas nesse aspecto, trazer maior efetividade às normas do mundo jurídico, dominar os mecanismos de aplicação do poder. Além disso o Direito tem estreito relacionamento com a psicologia, área do conhecimento que me instiga bastante a curiosidade.

Mas às vezes desanimo tão fortemente desses ideais... Sempre tive e ainda tenho ótimo raciocínio lógico-matemático. Participei e ganhei muitas medalhas em olimpíadas de matemática, química e física. Gosto muito de química e a biologia me fascina por desvendar os pequenos mistérios da vida.

Tenho um certo interesse mórbido pelo corpo humano e seu funcionamento. Por isso cheguei a pensar em Medicina (e ainda penso!).

Então volto a pensar no Direito, com toda sua pompa e cerimoniosidade.

O Direito fascina sim... Eu seria hipócrita se não reconhecesse isso. Mas ainda não me vejo apaixonada pelo seu conteúdo. Assim, volto para o início dessa postagem, lembrando da angústia que essa não compatibilização com o Direito me traz; e da preocupação com meu futuro.

Afinal de contas, é com isso que irei trabalhar até o fim da minha vida. Se não gostar, se não me apaixonar por isso, tenho pena de mim, pois será uma vida inteira desperdiçada tristemente com um trabalho que não me realizará profissionalmente, como um fardo.

Gostaria de poder me conceder férias de 6 meses para poder fazer leituras, as mais variadas possíveis a fim de descobrir minha verdadeira vocação. Temo chegar aos meus 50, 60 anos e dizer: ufa, me livrei desse trabalho, dessa prisão, desse fardo, que cerceou minha felicidade e sugou minhas energias e minha juventude. E, a essa altura, o que posso fazer para mudar a realidade? ... ! ... Só esperar a implacável das certezas.

"[...]Quero um dia para chorar
Mas a vida passa tão depressa[...]"
Cecília Meireles.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Vida e morte... E o aprendizado da frugalidade.

A vida, esta ardilosa, me fascina pela sua potencialidade e pela sua efemeridade.

Não são poucas as vezes que me encontro pensando sobre o que é a vida, qual o seu valor, seu sentido, o porquê da indisponibilidade do direito à ela.

Recentemente, porém, passei por uma situação limítrofe que me deixou um tanto estarrecida e perplexa com relação à fragilidade do ser humano frente às vicissitudes da vida.

Descobri, de forma inesperada, que um amigo possui uma doença rara, que, caso não tratada, leva à pior morte em 5 meses. (Para os curiosos, procurem no google por granulomatose de wegener.)

Chorei sim, vi-o muito mal antes da internação... medo de perder uma pessoa tão querida, medo da morte, medo de nossa vulnerabilidade.

Acho que não consigo lidar com essa única certeza da vida. Durante esse contratempo, porém, encontrei uma mensagem no facebook (anexada aqui) que me confortou um pouco.

É uma mensagem que sintetiza o caráter contraditório da vida, força positiva mais nobre que nos move, nos motiva, nos estimula, nos impulsiona e nos sensibiliza, mesmo que de maneira sutil.

Sim, sutileza é uma marca importante da vida, pois por enredar-se e permear todos os âmbitos do dia a dia, de modo, pode-se dizer, por vezes imperceptível, apenas somos capazes de valorar sua importância na ausência de suas manifestações fáticas.

É devido a isso que busco, cada dia mais, me integrar à natureza ao meu redor, me autoconhecer, definir claramente meus objetivos de vida e me melhorar como ser humano... levar uma vida mais frugal.

Longa jornada essa, não é!?! Mas, como traz Jack Kerouac em seu livro "On the road": "I wanted to take off (...) somewhere along the line the pearl would be handed to me".

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Feeling like Mr. Mersault...

Já faz mais de um mês que entrei aqui para deixar algum devaneio.

Foi um período muito corrido para mim, pois tive de organizar documentação, roupas e a mala a fim de estar realmente preparada para viajar para os States.

Em outro post me dedico a falar sobre a experiência do Programa Jovens Embaixadores.

O que quero registrar aqui é que acabei de reler o livro O Estrangeiro de Albert Camus e, mais uma vez, me sinto mal com essa leitura.

É incrível e inquietante o vazio, a falta de propósito de vida e a ninguendade do personagem Mr. Mersault.

Tenho medo de passar minha vida que nem esse personagem.

E essa re-leitura ainda me deixou mais chocada, por causa de uma outra leitura paralela (On Managing Yourself - comprado em Miami) que também alerta para nossa postura frente aos desafios da vida.

Preciso refletir, preciso ser mais focada, preciso descobrir meu papel nesse mundo. Não posso ser mais uma nesse mundo.

Faz-se necessário ser a diferença.

Obrigada, até!


"[...]Quero um dia para chorarMas a vida passa tão depressa[...]"                              Cecília Meireles

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Devaneios!?! Viajante!?!

Sim, sim! Devaneios de uma viajante! Este é o título do meu blog e agora passo a explicá-lo.

Devaneios porque o que escreverei por aqui são pensamentos avulsos que estimularem minha percepção, daí o nome devaneios.

Viajante... porque todos os seres humanos estão de passagem na Terra. Somos criaturas efêmeras, mas desse curto período de tempo que é vida temos de dar o nosso máximo, seguindo os padrões estabelecidos por Deus nas escrituras. É necessário ter espiritualidade e adotar o carpe diem a fim de poder tornar essa "viagem" o mais proveitosa possível.

Bom, por hoje é só! Amanhã escrevo mais!






"[...]Quero um dia para chorarMas a vida passa tão depressa[...]"                              Cecília Meireles



domingo, 25 de novembro de 2012

Início dos Devaneios

Bom, vou começar esse blog com dois textos marcantes de umas das mais recentes aulas de Literatura do COLUNI. Acho que esse termo aula está muito formal... como até comentei com a professora, considerei a aula como uma sessão de auto-ajuda... acho que eu estava precisando ouvir um pouco de Cecília Meireles, Drummond e suas artes literárias!

Esse é o primeiro trecho:

"[...]Quero um dia para chorar
Mas a vida passa tão depressa[...]"
                              Cecília Meireles

Forte, não é!?! Senti-me totalmente representada. Não se preocupe, não sou depressiva rsrsrsrsr!

É que às vezes, sinto uma grande vontade de parar tudo e desabafar tudo o que sinto, vejo, percebo, ..., fazer uma catarse dos meus sentimentos e emoções com cada mínima atitude cotidiana.

Esse blog vai me ajudar sim! Tenho certeza disso!

E como foi dito no mutual da igreja hoje, não só devo como vou conseguir organizar meu tempo para estar sempre postando por aqui.

Esse blog será minha válvula de escape das atribulações cotidianas!

O próximo trecho é esse aqui:

"Entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos". Drummond.

Isso! clap-clap-clap

Minha intenção não é virar poeta nem me fingir tão erudita quanto uma. Quero escrever, simplesmente escrever. Dar vazão a essa vontade interior de exteriorizar em palavras tudo que me sensibiliza!

E por hoje é só. Já valeu a coragem e determinação de iniciar este blog; eu já estava me cobrando a esse respeito a um bom tempo.

Depois, em outro post, explico o título do meu blog. Preciso dormir, tenho de estudar para outra semana de provas do COLUNI e "[...]a vida passa tão depressa[...]".