Recorrendo aos clássicos, é possível fazer uma correlação entre a trajetória do personagem Dorian e o mito de Narciso. Para quem não conhece a história, Narciso era um jovem lindíssimo filho do deus Céfiso e da ninfa Liríope. Por possuir uma beleza extremamente rara, estava predestinado a morrer, caso visse sua própria face; o que acontece quando ele se inclina sobre uma fonte, para beber água. Apaixonado pela própria imagem, descuida-se de tudo ao seu redor e morre comtemplando a si próprio. Correlacionando... A fonte d'água de Narciso equipara-se à pintura de Dorian Gray. Ambos possuíam uma beleza idealizada, desejaram fortemente não perdê-la. Viveram brevemente em suas "juventudes" e morreram tragicamente. Ou seja, a sedução pela beleza e o intento de torná-la eterna resultou em morte: morte social, por levar o indivíduo a banalizar qualquer coisa não circunscrita à sua aparência; morte psíquica, devido à perda de identidade do "eu", iludido com um físico belo; e morte física, encerrando as histórias de forma trágica.
O curioso e, relativamente triste, é que essa banalização do ser humano, bem como a supervalorização extrema da aparência não são atitudes reservadas aos aristocratas e dândis do século XIX, não é uma realidade cristalizada nessa época. Mas sim são fatalidades que não apenas nos acompanharam até os dias de hoje, como se modernizaram a fim de se adequar à sociedade contemporânea. É possível observar isso através do "boom" de transtornos alimentares (bulemia e anorexia) e da crescente individualização do ser humano, que se encontra cada vez mais interessado em alcançar seus objetivos, custe o o que custar (um retorno à máxima maquiavélica de que os fins justificam os meios! help!), sem o menor sentimento altruísta por outrem (calma, não estou generalizando! Acho que ainda há esperança para esse mundo!). Isso sem comentar a busca desenfreada pelos vários métodos de se alcançar padrões utópicos de beleza (uso de hidrogel e "bombas" de hormônio), tudo tão supérfluo e perigoso...
É... Acho tudo isso tão desnecessário... Eu sou uma pessoa que se sensibiliza facilmente pelas agruras alheias e, não sei se pela "convivência" com cadáveres em aulas de anatomia ou embriologia, atribuo um valor ainda maior à vida e temo pela efemeridade e fragilidade do ser humano. A vida é-nos um bem precioso, uma jóia divina e suas peculiaridades só nos fazem ver a perfeição da Criação. Então, por quê se iludir com tantas futilidades do dandismo contemporâneo? [Para o dandi, a aparência não é um mero complemento na vida, mas, sim, o propósito de sua existência!!!] Por isso, talvez, posso dizer que o único trecho do livro, no qual concordo com os pensamentos de Dorian Gray, é o seguinte: "[...]E, é claro, a vida em si era a primeira, a maior das artes, para a qual todas as demais artes pareciam apenas uma preparação".
http://serfelizeserlivre.blogspot.com.br/2014/04/selfie-e-o-narcisismo-moderno.html
http://lsoares.blogs.sapo.pt/224813.html
http://defrentecomoslivros.blogspot.com.br/2014/08/o-retrato-de-dorian-gray-livro-e-filme.html


